domingo, 5 de abril de 2009

Encomendação das Almas no Nordeste Transmontano

A “ encomendação das almas”, é a tradição que se mantém até aos nossos dias.
Durante a Quaresma, já noite cerrada, à luz de velas ou lanternas de azeite, grupos de homens encapotados e mulheres com os seus xailes pretos tradicionais, pela cabeça, reuniam-se no adro e em locais específicos da aldeia. Aí entoavam, em coro, com tom dolente e triste, e cheio de angústia, cânticos em memória das benditas almas do Purgatório.

Este é um dos cânticos da “encomendação ” :
À porta das almas santas
Bate Deus a toda a hora.
As almas lhe responderam
Ó meu Deus, que queres agora?

Quero que deixeis o mundo
E que venhais para a glória
Em companhia dos anjos

E da Virgem Nossa Senhora.
Quem quiser dar esmolas aos pobres,
Não precisa de ter riqueza,
Dai das vossas migalhinhas
Que sobram da vossa mesa.

Quem quiser dar esmola aos pobres,
Reparai bem como a dais.
Dai-a com a mão direita
Por alma dos vossos pais.

Santa Teresa de Jesus,
Menina de cinco anos,
Meteu cartas ao correio
Este mundo é de enganos.

Santa Teresa de Jesus
Foi ao inferno em vida,
Veio toda admirada
De ver tanta alma penada.










Encomendação das Almas no Nordeste Transmontano

Produção e realização de Leonel Brito, texto de Rogério Rodrigues e participação especial do Padre Rebelo.

9 comentários:

Anónimo disse...

Tradições da Quaresma no concelho da Guarda
Encomendação das Almas e Martírios

O concelho da Guarda ainda mantém grandes tradições quaresmais que, anualmente, são revividas pelas populações.
Os cânticos típicos da Quaresma relacionados com a “Encomendação das Almas” e os “Martírios” de Jesus Cristo são dois dos costumes preservados pelos mais idosos e por algumas Associações Culturais do concelho.



Na freguesia de Marmeleiro continuam a cantar-se os “Martírios” e a “Encomendação das Almas”, sendo que a primeira tradição é exclusiva dos homens e a segunda está mais associada às mulheres.
Aldeia do Bispo, Maçainhas, São Miguel, Faia, Castanheira, Fernão Joanes, Quinta de Gonçalo Martins e Sequeira, são outras das localidades onde a “Encomendação das Almas” também subsiste com o apoio das associações locais.



A sua continuidade também está a ser apoiada pela Câmara Municipal da Guarda que no sábado à noite, 31 de Março, organizou na Praça Velha, o segundo encontro da “Encomendação das Almas”, com a participação de oito colectividades e um total de 130 pessoas envolvidas.
Marcaram presença os seguintes grupos: Grupo de Cantares “Camponeses de Aldeia do Bispo”, Grupo de Cantares “Ontem e Amanhã” de Maçainhas, Grupo de Cantares “A Mensagem” de São Miguel, Grupo de Encomendação das Almas da Faia, Associação juventude Activa da Castanheira, Centro Cultural e Social do Marmeleiro, Grupo Social e Desportivo de Quinta de Gonçalo Martins e Associação Cultural Social e Recreativa da Sequeira.





“Martírios” continuam a ser cantados no Marmeleiro

A tradição do “Cantar dos Martírios” ainda se mantém na aldeia do Marmeleiro, pela persistência de três cantadores já de idade, que temem o desaparecimento deste costume religioso.
José Marques (75 anos), Manuel Pinheiro (69) e Jerónimo Fernandes (69) são os últimos resistentes de uma tradição exclusiva de homens, que no passado, envolvia mais de uma dezena.



Durante o tempo da Quaresma os “martírios” que lembram o caminho de Jesus até ao Calvário “são cantados meia dúzia de vezes”, salienta José Marques. “Antigamente cantávamos em alguns dias da semana e todos os sábados e domingos da Quaresma mas, agora, já somos poucos e as forças começam a faltar, por isso cantamos quando podemos”, referiu.
“Os mais velhos morreram e outros foram para o estrangeiro, os mais novos são poucos e não ligam, isto está condenado a desaparecer”, vaticina.



Também Manuel Pinheiro refere que a tradição só ainda se mantém “por muita força de vontade”.
“Nem todos querem andar aqui, a estas horas da noite, pelo meio do povo, a cantar ao frio e à chuva”, acrescenta.
O “Cantar dos Martírios” tem início pelas 22:00 junto da igreja do Marmeleiro, depois do trio masculino ter rezado um Pai-Nosso e uma Avé-Maria “para que tudo corra bem” e termina no mesmo local cerca de uma hora e meia depois.



Antigamente, quando o grupo era maior dividia-se em dois.
Na frente seguiam aqueles que cantavam os sessenta martírios e mais atrás os da resposta, que após cada martírio cantavam a plenos pulmões “Tende Misericórdia de Nós”.
“Agora, como somos só três, temos de cantar os martírios e também a resposta, o que é mais cansativo”, comenta José Marques.



Os sessenta Martírios, desde o primeiro (“Jesus Rei Pacífico que entraste em Jerusalém”), ao último (“Jesus que roubaste os presos do lago do inferno”), são cantados todos de seguida.
“As respostas são sempre iguais, os martírios é que são diferentes”, acrescentou.
Na aldeia ainda há quem lembre tempos idos, quando “o coro era enorme e as vozes se ouviam longe, praticamente em todas as povoações das redondezas”.




.

Anónimo disse...

Na Segunda Feira de Páscoa joga se o cântaro em cada bairro. Rapazes e raparigas arranjam cântaros de barro já velhos, e divertem se jogando o de mão em mão, a certa distância. O período que antecede a Páscoa, após o Carnaval, chama se quaresma. É tempo de penitência e oração. Faz se a "encomendação das almas" a horas mortas. É um ritual que obedece a determinadas regras. Entoam quadras dedicadas aos defuntos.

À porta das almas santas
Bate Deus a toda a hora
As almas lhe responderam
Ó meu Deus que quereis agora?

Quero que deixeis o mundo
E que venhais p'ra glória
Em companhia dos Anjos
E da Virgem Nossa Senhora.

No fim rezam. Estes cânticos são feitos em pontos estratégicos de cada bairro. Na deslocação de um bairro para o outro vão cantando ou rezando. "No entrudo come se tudo". Nesse dia as refeições são à base de carne de porco. Orelheira, pé, fumeiro. Durante a tarde principalmente os jovens mascaram se de preferência com personagens da vida agrícola e actividades da terra. Atiram farinha às raparigas e também queimam cortiça pra com cinza as enfarruscarem. À noite fazem o enterro do Entrudo simulando um boneco que queimam. Já noite dentro, meia noite, fazem os casamentos. Os rapazes colocam se em pontos altos da aldeia e com embudas (grande funil) apregoam o casamento de um rapaz rico com uma rapariga de outra condição social e mais pobre ou vice versa. No dia seguinte o noivo vai cumprimentar a noiva. Na festa de Santo António, quando a procissão regressa à igreja o andor do santo é colocado numa mesa para cantarem loas de agradecimento ao Santo António por graças concedidas de promessas feitas.

Grifo disse...

Os meus sinceros agradecimentos a um Anónimo que enviou os dois comentários anteriores, bastante interessantes, mas também o texto que acompanha as fotografias do documentário "Encomendação das Almas no Nordeste Trasnsmontano" e a notícia sobre os Sete Passos.

Anónimo disse...

No Distrito da Guarda

O Serrar da Velha

Esta tradição, efectuada na época da Quaresma, à noite, destina-se às pessoas que foram avós pela primeira vez nesse ano. Cantam-se algumas quadras, em tom satírico, e, num pau de cortiça simula-se o som de uma serra.
A mocidade munida de um serrote percorria a aldeia, e, onde houvesse uma avô parava e dedicava-lhe uns versos nada agradáveis. A maior parte das avós não apreciava muito este costume pelo que a rapaziada não se encostava muito à janela com medo de ser presenteado com alguma coisa que elas tinham sempre à mão. As mais idosas não ligavam muito a este ritual, e até gostavam, mas, com as mais novas, pessoas com cerca de 40 anos que já eram avós e passarem a ser serradas como velhas era muito complicado.
Uma das quadras usadas é esta:

ESTAMOS NO MEIO DA QUARESMA
SEM PROVAR O BACALHAU
VAMOS SERRAR NESTA VELHA
COMO QUEM SERRA NUM PAU

Anónimo disse...

REBELO, Joaquim Manuel (1978) A encomendação das almas nos concelhos de Torre de Moncorvo e Freixo de Espada-à-Cinta. Colecção Cadernos Culturais, III. Vila Real: Núcleo Cultural Municipal.

Obrigatório ler para entender os setes passos em Freixo

Anónimo disse...

Não tem de quê,amigo Grifo.
Nós,os leitores ,é que agradecemos o seu esforço e dedicação a esta região.Obrigado por tudo e mais noticias de Freixo.

Anónimo disse...

Onde posso encontrar o livro do Padre Rebelo?
Não o encontro em nenhuma livraria nem na net.E vivo em Lisboa.

JPT disse...

e que tal:
http://tv1.rtp.pt/noticias/?t=Freixo-de-Espada-a-Cinta-cumpriu-tradicao-pascal.rtp&headline=20&visual=9&tm=8&article=213256

Anónimo disse...

Ao Anónimo que pediu o opúsculo do Padre Rebelo sobre a Encomendação das Almas: Contacte a Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo, a quem a família do falecido Pe. Rebelo doou alguns livros da sua biblioteca. Como é um livrinho pequeno, de certeza que leh enviam fotocópias.
Cumprimentos,
N.